quarta-feira, 29 de maio de 2013

(Somente) Sonhos não colocam comida no prato. Dinheiro, sim!!


Postado em maio 6, 2013 - by Marcelo Vitorino


­­­— João, você não está pensando em passar o domingo todo com a bunda grudada nesse sofá, não é?

Para a infelicidade da esposa, diferentemente dos outros domingos, dessa vez a resposta foi um sonoro “não”. Teria sido ótimo se essa mudança tivesse se encadeado por outros motivos, mas para aquele dia João tinha planos.

Ainda sentado em sua confortável poltrona de couro vermelho — a única peça destoante do restante da decoração, visto que fora um presente de sua mãe — João explicou o que estaria por vir.

— Amor… Eu estava pensando…

— Sério? E você pensa agora? Só falta levantar e ir trabalhar então!

— Pare com isso, Maria! Você sabe muito bem que estou procurando emprego, mas o mercado está difícil, cada vez mais é necessário ter pós-graduação e sequer formado eu sou!

— Outra desculpa, João? Você não se envergonha?

— Vergonha? Vergonha de quê? De seguir meus ideais e não me sujeitar a qualquer um desses empregos burocráticos? De jeito nenhum. Eu sou um artista! Não sou um qualquer!

— Artista? Faça-me o favor… Quando nos conhecemos você trabalhava em um pedágio! Eu achava pouco, mas só achava. Não sabia que logo em seguida você se reduziria a isso.

— “Isso”? Você sabe que aquele trabalho só servia para pagar meus estudos…

— Sim! “Isso”! Aliás, me expressei mal. O correto seria “só isso”…

O casal já não se entendia há algum tempo, era fato, mas nas últimas semanas a relação parecia que iria terminar em alguma delegacia. Não fosse o jeito pacato do marido uma discussão carregada de ofensas poderia terminar muito mal.

A verdade é que Maria cansou. No início apoiou o espírito de Don Quixote que parecia ter baixado em João, mas depois o ócio dele provocou uma sequência de desentendimentos e com eles o desprezo.

João parecia não se importar ou não entender o que estava acontecendo a sua volta. A cada dia que passava vivendo em seu mundo particular, parte daquele casamento desmoronava. Sua alma de “artista” não podia simplesmente se vender para o mundo capitalista, como ele gostava de falar.

Seu talento como desenhista era mesmo impressionante, tanto que, desde sua adolescência diversas agências de publicidade tentaram contratá-lo para trabalhar. João sequer ouvia as propostas. Preferia ver a morte chegar mais cedo do que ver um trabalho seu estampado em alguma mentira publicitária feita para gerar dinheiro.

Ele queria trabalhar com publicações em revistas especializadas, fazer uma exposição, viajar o mundo dando aulas. Porém, suas escolhas o afastaram de seus sonhos.

A falta de visão comercial fez com que não conseguisse ter uma boa exposição de seus trabalhos, o que, consequentemente, impossibilitou que o restante das coisas acontecesse.

Com o passar dos anos, contabilizando os seguidos insucessos, entendeu que deveria se dedicar a desenhar a novela perfeita. Construiu um enredo, montou os personagens e uma linha principal. Nenhuma editora se interessou.

João se deprimiu e, amargurado, começou a beber. Engordou. Sentia-se um inútil. Pensou em suicídio, mas a falta de coragem o impediu de fazer essa bobagem.

Nos primeiros anos Maria o amparou. Passou a trabalhar em dois períodos para sustentar a casa sozinha. Na maior parte dos finais de semana se dedicava a cuidar das tarefas domésticas. Tudo para que João corresse atrás de seu sonho.

Um acontecimento em particular reduziu a boa vontade que Maria tinha com João. Certa vez um conhecido do marido foi jantar em sua casa.

Leonardo era amigo de João desde a época de colégio. Durante a adolescência era o mais próximo, não se desgrudavam. A relação ficou mais distante quando Leonardo enveredou para a publicidade, mas o respeito continuou. Ficou sabendo das dificuldades em que o colega se encontrava e foi oferecer ajuda.

Alegremente, passaram o jantar todo relembrando seus tempos de juventude. Foi durante a sobremesa que o tom mudou.

— João, quero que saiba que vim como amigo. Sei que está passando por um momento complicado e quero te ajudar.

Maria percebeu que sua presença poderia ser um problema, arrumou uma desculpa e foi para a cozinha.

Foi de lá mesmo que ouviu a porta da sala bater. Assustada, voltou correndo para ver o que tinha acontecido.

— O que aconteceu, João?

— Nada! Nada!

— Imagina… Saio daqui com vocês dois rindo e se dando bem, volto e te encontro sozinho. O que foi que ele falou?

— Me propôs um emprego. Só isso. É um esnobe… Disse que eu poderia fazer as ilustrações da agência dele se topasse receber oito mil por mês. Quem ele pensa que é para botar preço na minha arte?

Oito mil por mês era dinheiro para ninguém botar defeito. Ninguém, menos João. Daria para colocar todas as contas da casa em dia e Maria poderia desafogar um pouco, contratar uma empregada.

Dali em diante, a qualidade da relação se jogou do penhasco. Aquele “só isso”, apenas ilustrou o fim. Fim que João até hoje não entendeu.

terça-feira, 7 de maio de 2013